Parashat Chayei Sara (חַיֵּי שָׂרָה — “A vida de Sara”)
Bereshit (Gênesis) 23:1–25:18
Shabbat 27 de Cheshvan de 5787 (7 de novembro de 2026) — quinta parashá do ciclo de leitura da Torá
A Vida que Começa pela Morte: Por que “Foram” os Anos de Sara
Uma parashá chamada “A vida de Sara” começa com a morte de Sara. Depois da soma dos anos e do luto em Kiryat Arba, a leitura inteira gira em torno de um túmulo comprado, de uma noiva buscada em terra distante e de um velho que é enterrado ao lado da esposa. A pergunta é inevitável: onde está, afinal, a vida?
A Torá abre com um verbo estranho: “E foram os anos da vida de Sara” (Bereshit 23:1). O Or HaChaim (Rabi Chaim ben Attar, Marrocos e Jerusalém, 1696–1743) estranha a escolha. De Adam e de Shem a Torá diz “E viveu”, e de Avraham diz “Estes são os anos de”. Para Sara diz “E foram”, e esse verbo tem sabor de aflição. Segundo o Tanchumá, Sara morreu ao saber da amarração de Yitzchak, e a alma voou. Segundo o Pirkei de-Rabi Eliezer, a má notícia lhe encurtou a vida, e a soma dos anos é “um novo ser”, secundário em relação ao que estava fixado. Daí a frase que dá nome à parashá: “os justos dão vida aos seus dias, e os ímpios são aqueles a quem os dias é que dão vida”. Há ainda uma leitura mais dura: os cem anos foram vividos “na aflição”, pelos filhos que não vinham e por Yishmael perseguindo Yitzchak, e só nos vinte e sete seguintes Sara confiou no filho.
Quando a Torá diz que ela morreu “em Kiryat Arba, que é Chevron” (23:2), o Or HaChaim lê o nome como um sinal de que os justos, mesmo depois da morte, “são chamados vivos” (Shabat 152b). E a cena seguinte, que parece pura negociação, ensina como se firma um direito. Avraham se apresenta como “estrangeiro e residente” (23:4), e o Or HaChaim lembra que o Rambam manda dar de graça ao guer toshav (o estrangeiro residente). Mas ele nota também o cuidado de quem teme que o dono se arrependa. Efron nunca viu na caverna senão escuridão e pavor, diz o Zohar (I, 128), e poderia voltar atrás ao descobrir o seu valor. Por isso Avraham diz “por dinheiro cheio” e “no meio de vós” (23:9), e a Torá conclui que “levantou-se o campo” (23:17) segundo todas as normas de aquisição. O único chão que é nosso de verdade é o que ninguém pode reclamar depois.
Na tradição Conservadora/Masorti, o Rabino Gordon Tucker, vice-chanceler do JTS para a Vida Religiosa e o Engajamento, lê a mesma cena a partir da fragilidade. Em “Ger Vetoshav: A Lesson on Vulnerabilities and Humility” (JTS Torah Commentary, Hayyei Sarah 5785), ele nota que o choro de Avraham em 23:2 é só a segunda vez que a Torá registra pranto, e que o primeiro foi causado por ele mesmo, ao despedir Hagar e Yishmael. Quando diz “ger ve-toshav anokhi”, Avraham fala como quem não tem lugar nem direitos acumulados e só consegue imaginar um lugar para enterrar os seus mortos, não para viver. Para ele, a busca por Rivka no capítulo 24 nasce do medo de que Yitzchak, sem a força cultural de um imigrante, seja engolido pela maioria. E recorda que Levítico 25 devolve a expressão a todos nós (“gerim vetoshavim atem imadi”, “sois estrangeiros e residentes comigo”). Citando o Maguid de Dubno (Rabi Yaakov Krantz, século XVIII), ele conclui que, se nos julgamos toshavim, donos assentados do mundo, Deus passa a ser o ger, uma presença de passagem; se nos reconhecemos gerim, hóspedes chamados a melhorar o mundo, Deus se torna o toshav, uma presença permanente.
O Rebe Nachman de Breslov e seu discípulo, o Rebe Natan, leem a mesma cena com outra luz. Em La Torá del Rebe Najmán, os cem anos de Sara correspondem às cem bênçãos que se recitam por dia, e a palavra shaná (“ano”) aparece quatro vezes no versículo, como os quatro trechos dos tefilin. Assim como Rashi diz que aos cem ela era como aos vinte, sem pecado, e aos vinte como aos sete, em bondade, cada fase da vida de Sara estava cheia de bondade e de renovação (Likutey Halachot V, p. 458; I, p. 79a). A mesma obra a liga ao quarto nível de humildade, o de ser a mais humilde entre os humildes, e por isso “todos os seus dias foram bons” (Likutey Moharan I, 14:4; II, 72).
É na cabalá, na tradição que essa obra registra, que a compra de Machpela ganha profundidade. Havia na caverna uma grande luz vinda do Jardim do Éden, e Efron não a percebia. Avraham a viu, e soube que ali ficava a entrada do Éden (Likutey Moharan I, 17:2). Mesmo assim, recusou receber a caverna de presente, porque o dinheiro usado em mitzvot e no estudo da Torá é santo e tem o poder de anular as klipot, as “cascas” que cercam um lugar sagrado e escondem a Divindade que está dentro (Likutey Halachot VIII, p. 10b). O nome “Efron” partilha a raiz de afar (“terra”) e indica preguiça e depressão, que a fé de Avraham converte em força vital e luz (Likutey Halachot I, pp. 156–158). Os quatrocentos shekels de prata (kesef, ligado a kisufim, “anseio”) representam os quatrocentos mundos de anseio que os justos alcançarão no Mundo Vindouro (Zohar I, 123b). E o nome “Machpela” (“dupla”) alude aos quatro casais ali sepultados, simbolizados pelos tefilin: ao colocá-los, diz o Rebe Natan, é possível “entrar na caverna” (Likutey Halachot I, p. 156). E, por ter comprado o chão dos filhos de Chet, a primeira das sete nações, Avraham inicia a conquista da Terra, que só se completa quando cada um quebra a “fera selvagem” que leva dentro (Likutey Halachot II, p. 94).
Na leitura nossa, não do Or HaChaim nem de Breslov, esses modos de ler “E foram” se encontram. Para o Or HaChaim, a vida de Sara foi medida pela aflição que a encurtou; para Breslov, pelo bem e pela renovação que a encheram; e a Torá, no fim, repete a lição ao dizer de Avraham que “viveu” cento e setenta e cinco anos. O Or HaChaim lembra que, segundo o Bereshit Rabá 63, lhe faltaram cinco anos, antes de Esav cometer cinco transgressões, e por isso a Escritura diz “que viveu”: são os anos que ele viveu, e não os que lhe estavam fixados. Há ainda um fio entre Tucker e o Or HaChaim: ao dizer “estrangeiro” antes de “residente”, Avraham, segundo o Or HaChaim, evitou chamar-se “residente” neste mundo, o que seria o contrário do caráter dos justos, intuição muito próxima da do Maguid de Dubno.
Chayei Sara é lida na quinta semana do ciclo, depois da Criação, de Noach e do chamado de Avraham, quando a Torá passa a tratar de lugar e de continuidade: um túmulo comprado, uma noiva trazida, um filho consolado. Talvez o convite seja este: perguntar de que são feitos os nossos “foram”, se do que nos tirou os dias ou do que acrescentamos a eles, e o que ainda podemos comprar, buscar e enterrar com cuidado para que valha como vida.
Fontes: Bereshit 23:1–25:18; Levítico 25; Or HaChaim sobre Chayei Sara, conforme o documento “Or HaChaim — Chayei Sara: Comentário Integral” (tradução do Moreh Mikhael Schiffmann), com as fontes que ele cita: Tanchumá, Pirkei de-Rabi Eliezer 32, Shabat 152b, Rambam (Leis de Aquisição e Doação), Zohar I, 128, Bereshit Rabá 63; Rabino Gordon Tucker, “Ger Vetoshav: A Lesson on Vulnerabilities and Humility” (JTS Torah Commentary, Hayyei Sarah 5785, jtsa.edu), com o Maguid de Dubno, conforme citado por ele; La Torá del Rebe Najmán: Ideas de Breslov sobre la Lectura Semanal de la Torá, Parashat Jaié Sara (pp. 207–216), com Rashi, Likutey Moharan I, 14:4; 17:2; II, 72; Likutey Halachot I, pp. 79a, 156–158; II, p. 94; V, p. 458; VIII, p. 10b; Zohar I, 123b, conforme citados nessa obra.
VaChomer Torá | Moreh Mikhael Schiffmann Roland